Biblioteconomia antropocêntrica

Encontrei na minha gaveta um antigo adesivo-propaganda de uma biblioteca que dizia “Mais do que livros…nossa biblioteca têm de tudo!” Na propaganda está uma fita VHS, uma fita K7 e um CD. Creio que esse adesivo nunca foi uma boa ferramenta de marketing. Nós costumamos ouvir que as bibliotecas são mais do que apenas livros. É verdade que nós temos livros, mas nós também temos ebooks. Nós temos bases de dados, videotecas e video-games. Nós possuímos coleções de pesquisa acadêmcia, relatórios e estatísticas que você não consegue encontrar no Google. Nós temos um ambiente físico e espaço para as pessoas estudarem silenciosamente e espaço para grupos se encontrarem e conversarem. Nós temos computadores e tecnologia para as pessoas que querem experimentar e usar. Nós promovemos treinamentos e eventos. Nós temos um website e estamos presentes em várias redes sociais.

Mas e daí…quem se importa?

Simon Sinek em um excelente TED Talk diz que “as pessoas não compram o que você faz, elas compram a razão de você fazê-lo”. As coleções, a biblioteca física, nossos eventos e websites são apenas coisas. Mas qual é o por quê por trás de todas essas coisas que nós temos e fazemos? Por que nós criamos espaços de trabalho colaborativo para os nossos usuários? Por que nós oferecemos hora do conto e eventos literários? Por que nós oferecemos acesso à computadores e à internet?

Em uma palavra: pessoas.

Nós criamos esses espaços porque acreditamos que as pessoas devem ser capazes de se conectar umas com as outras. Nós promovemos eventos literários porque acreditamos que as pessoas devem ser capazes de melhorar a si mesmas por meio da aprendizagem e do conhecimento. Nós oferecemos acesso aos computadores porque nós acreditamos que as pessoas merecem chances e oportunidades igualitárias. Nós acreditamos que os membros da nossa comunidade merecem um espaço de pertencimento, em que se sintam seguros, explorem sua curiosidade e têm acesso ao conhecimento. É por isso que todas essas coisas importam.

É fácil, entretanto, prestar mais atenção nas coisas do que nas pessoas. Algumas vezes eu mantive o foco tanto no plano de ação que esqueci dos estudantes e o seu aprendizado naquele momento. É fácil seguir o movimento do serviço de referência, encontrar um livro ou artigo para alguém sem mesmo compreender o real problema dela. É fácil tomar decisões sobre as coleções no vácuo, esquecendo o que as pessoas realmente querem e usam.

Para resolver os grandes desafios que nós enfrentamos precisamos mudar o foco para uma direção diferente das nossas coisas, nossas coleções e nossa biblioteca. Eu gosto da ideia de adotar uma filosofia de biblioteconomia antropocêntrica. Isso não se trata apenas de “prestação de serviços”, é uma mudança mental. As pessoas importam mais do que as coisas. Ter o foco nas pessoas possui implicações profundas. Como seria então uma biblioteconomia antropocêntrica?

  • Utilizaríamos processos de user experience e design centrado em humanos para melhorar ou resolver problemas
  • Buscaríamos genuina e regularmente  alcançar e ouvir as opiniões dos nossos usuários porque eles realmente importam para nós
  • Trabalharíamos duro para capacitar toda a equipe de funcionários e colaboradores já que somos humanos também (para capacitar nossos usuários precisamos de equipe capacitada)
  • Nos preocuparíamos menos com as pessoas bagunçando nossas coisas e comendo na biblioteca e mais quando as pessoas têm reclamações ou sugestões a fazer (e trabalhar duro para atender essas questões)

E fazer o marketing de uma biblioteconomia antropocêntrica não seria um adesivo dizendo “oi, nós temos disquetes” (ou ebooks, ou qualquer nova tecnologia da moda). O marketing correto seria falar sobre o que eles podem fazer com o serviço ou a tecnologia e de que forma isso facilita a vida deles. Nosso produto não são livros ou ebooks ou espaços silenciosos ou bases de dados. Nosso produto é conhecimento, conexão, aceitação, criatividade e curiosidade.

Andy Burkhardt

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