Usuários, alunos, clientes, patronos ou membros?

Como chamar as pessoas que entram na biblioteca? São usuários? Clientes? Alunos? O que são eles?

Patronos — essa palavra parece antiquada. Possui boas intenções, já que patrono é definido como alguém que oferece suporte à uma institução, mas esse termo simplesmente não soa muito bem quando sai da minha boca.
Usuários — parece que estou descrevendo alguém que usa drogas, mas é a palavra que eu mais utilizo porque as pessoas que entram na biblioteca ou acessam o site da biblioteca estão de fato fazendo USO de algo.
Clientes — bem, não estamos realmente vendendo qualquer coisa na biblioteca, então a palavra cliente (alguém que estabelece alguma relação comercial de produtos e serviços) é um pouco desconfortável.
Alunos — sim, todo mundo é estudante alguma vez na vida. Porém, o uso excessivo do termo pode levar à confusão e para bibliotecas que oferecem atendimento específico para estudantes (ensino fundamental, médio ou universidades) pode ser ainda mais complexo.
Cidadão — cidadão segundo Aristóteles é aquele que participa dos poderes do Estado. Se as bibliotecas públicas são um instrumento do Estado, financiadas por recursos públicos,  então as pessoas que as usam podem ser chamadas de cidadãos. Correto, mas soa impessoal no ambiente da biblioteca.

Outros termos mencionados no Twitter:
visitante, leitor, consumidor, participante, membro da comunidade

E as pessoas que acessam a bibliotecas sem entrar pela porta? Elas usam o website da biblioteca e fazem download de artigos de periódicos, ebooks e conversam com os bibliotecários via chat. Como elas são chamadas? Eu as chamo de usuários. Elas deveriam ser chamadas de maneira diferente? Como nós chamamos as pessoas que simplesmente não usam as bibliotecas, física ou digital? Usuários em potencial?

Bom, eu geralmente falo usuário para descrever alguém que está utilizando a biblioteca. Me parece o mais apropriado. E se alguém me olhar estranho (“você me chamou de usuário?”) eu recomeço dizendo “usuário da biblioteca” para me fazer claro. Porque eu acredito que qualquer pessoa que entra na biblioteca (fisica ou virtualmente) está USANDO a biblioteca. Algumas pessoas gastam  mais tempo buscando e coletando as informações que precisam. Outras são mais passivas e escolhem os livros que indicamos.

Uma das minhas colegas de turma, Lyndsey (@dearlyndsey) diz, “eu prefiro palavras ativas… usuário entra nessa categoria. Por trabalhar em uma biblioteca universitária eu simplesmente uso a palavra alunos. Se eu trabalhasse em uma biblioteca pública acho que iria descrever todos como membros da comunidade”.

As bibliotecas estão sendo utilizadas por suas comunidades mais do que nunca. Se nós não sabemos como chamar as pessoas que utilizam as bibliotecas, como iremos entender suas necessidades e ajudá-los da melhor maneira que podemos?

Heidi Schutt

[comentários associado ao post, sobre a peculiaridade do uso do termo "patrono" nos Estados Unidos]

Eu ainda não tive essa conversa na escola de biblioteconomia. Patrono é o meu favorito pessoal. Eu acho que se nós aceitarmos que a linguagem tem um significado e efeitos sobre como construimos percepções então existem 3 razões claras por que bibliotecários e administradores de bibliotecas deveriam usar o termo.

Primeiro, patrono (s) é uma palavra que tem pouco a ver com o mundo capitalista. É uma palavra que denota que as pessoas que acessam as bibliotecas estão lá para serem servidas. Devido à sua situação única na nossa cultura, a palavra também fornece o contexto que reconhece que esses serviços podem ser intangíveis de qualquer forma mensurável. Além disso, mesmo quando esses serviços são mensuráveis ​, nenhum  dólar pode ser colocado sobre eles. A tradução da retórica de modelo de negócios nos serviços públicos é devastador; obriga bens públicos a serem justificadas em um campo de jogo completamente diferente. Quando é que vamos pedir as nossas empresas da lista do Fortune 500 que bem público elas estão oferecendo? Algumas coisas existem e precisam ser protegidas porque não têm valor intrínseco e uma vez que as colocamos em uma categoria na qual são capazes de serem percebidas em termos de mercado se tornam muito diminuidas. Nesse ponto, há um reconhecimento tácito ou explícito que existe agora um preço associado a elas. Nunca devemos colocar um preço sobre nós mesmos, nossos patronos ou nossos serviços.

Patronos também se encaixa naquilo que fazemos na biblioteca, oferecer uma infinidade de serviços. Como você chama o mendigo de 80 anos? Patrono. Como você chama a dona de casa que vem para hora do conto e folheia as revistas? Patrono. Como você chama o estudante que usa coleções de bancos de dados on-line? Patrono. Qual termo é usado para o preso que liga da cadeia para ter acesso a recursos legais em uma biblioteca de Direito da Universidade? Patrono. É um termo universal que cabe qualquer um que acessa nossos recursos, desde classes de ponto-cruz a pesquisas no Lexis-Nexis. Por que ter termos específicos para cada biblioteca? Por que etiquetar mal ou deturpar uma atividade? Bibliotecas não existem apenas para aulas de informática ou best-sellers de James Patterson, nós temos um papel único. Estamos aqui não apenas para fornecer informação, mas para preserva-la de modo a ser utilizada no futuro. Eu diria que, se uma biblioteca ficar sem patronos por pelo menos 1000 anos, e então alguém de Marte acessa as bases de dados para algum tipo de verificação trivial, essa pessoa seria um patrono. Talvez, o patrono é a melhor maneira de identificá-lo. Os 1000 anos de solidão legado para a biblioteca e sua equipe teria valido a pena, a biblioteca teria cumprido seu propósito. Isso não quer dizer que devemos procurar por esse nível de tráfego, mas que temos de ver a nossa existência como um nexo multifacetado de informação. Patrono é uma palavra que serve como prisma através do qual todas as facetas podem ser vistas e reconhecidas. Nós nem sequer chegamos à discussão sobre como as pessoas irão utilizar os nossos serviços para propósitos diferentes em momentos diferentes.

Finalmente, acho que há algo estranho sobre o termo. Sim, é histórico, empoeirado e talvez até mesmo datado. No entanto, quando nós chamamos as pessoas que vêm através da nossa portas de patronos, evocamos um talismã poderoso que nos conecta a partir de nosso atual estado de transição, para o nosso passado. Cada vez que pronunciamos patronos nós invocamos a nossa responsabilidade e o privilégio de servir as nossas comunidades. Reconhecemos nossos papéis institucionais. Isso é uma coisa poderosa. É nada menos do que uma reafirmação simbólica do valor da comunidade, as nossas tradições e nosso papel. Como eu disse acima, o termo é um prisma, podemos usá-lo para ver a nós mesmos, assim como nossos clientes. É um termo que, quando falado ou escrito deveria, precisa inspirar-nos a renovar nosso compromisso com a profissão, nossas comunidades e nós mesmos. Não sei se qualquer um dos outros termos pode chegar perto, mesmo com a passagem do tempo.

Zachary Frazier

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