Zen e Arte da crítica construtiva

Se houvesse um único conselho que eu daria para novos profissionais que entram no campo da biblioteconomia seria desenvolver a habilidade de fazer e receber críticas. Isso não é algo que eu tenho sido capaz de encontrar nos currículos dos cursos de biblioteconomia, programas de cursos a distância ou panfletos de conferências. Embora não sejamos formalmente educados na arte da crítica, os profissionais de biblioteca são obrigados a fornecer e aceitar o feedback em uma variedade de situações diferentes. Por exemplo, podemos participar em fazer e receber críticas de e para os colegas, supervisores e pupilos e em outras situações (para eleições, durante as observações em um treinamento, quando fornecemos referências de trabalho, durante a revisão por pares, avaliações anuais, etc.)

Mesmo quando direcionada de forma construtiva, a crítica pode ser um fardo pesado, particularmente para os novos profissionais que entram no campo. A nossa hesitação para educar e engajar em modelos de feedback positivos é sintomático de uma visão preto e branca do mundo. Na biblioteconomia, essa visão se manifesta através de dualidades como catalogação ou serviços públicos; centrados no usuário ou presos no passado; inovador ou resistente à mudança; colegas que nos amam ou nos odeiam. A comunicação é vista como boa ou má, com o delineamento muitas vezes feito em segundos com base na reação instintiva e o contexto em torno de uma determinada situação ou pessoa envolvida. Mas cada situação tem os seus tons de cinza. Embora nós não sejamos nossas ideias e não sermos nossas palavras, muitas vezes colocamos um senso de propriedade e identidade na comunicação. A parte difícil é quando precisamos nos separar aquilo que dizemos daquilo que ouvimos.

Minha própria luta com a crítica é um processo de aprendizagem contínuo com base em pesquisas e auto-reflexão. Este artigo irá delinear dicas para a prestação de crítica construtiva, os métodos de aceitar crítica quando é dada, e como lidar produtivamente com crítica destrutiva.

Por que a crítica é ameaçadora?

É importante mencionar que lidar com a crítica não é simplesmente um exercício de controle mental. Quem entre nós não experimentou palpitações cardíacas, músculos tensos e aumento da pressão arterial no momento em que um trabalho de pós-graduação é retornado com uma nota baixa ou um artigo peer-reviewed é enviado de volta com edições? Quando nossas ações são postas em causa, somos obrigados a contrariar nossa própria fisiologia. Em seu artigo sobre a psicologia de dar e receber feedback crítico, Wright se refere a este como um “viés da negatividade”, baseado no fato de que diferentes circuitos do sistema nervoso lidam com informações/eventos negativos mais do que informação/eventos positivos. Baumeister e seus colegas da Case Western Reserve University e da Universidade Livre de Amsterdã ampliam ainda mais essa idéia em seu estudo de 2001 sobre a razão do mau ser mais forte do que o bem em uma ampla gama de fenômenos psicológicos: “Mesmo após a resposta comportamental à indução de medo em um estímulo condicionado ter sido extinta, o cérebro mantém um padrão alterado de conexões neurais entre as células … “(Baumeister 336). Assim, estes sistemas negativos são mais sensíveis e, como resultado, nós reagimos rapida e visceralmente a más notícias.

Nossas reações são profundamente semeadas pelos instintos de sobrevivência do “lutar ou fugir” . Quando somos criticados corremos o risco da exclusão e pensando bem, isto seria igual a morte. “Sobrevivência requer atenção urgente para possíveis resultados ruins, mas é menos urgente em relação a bons resultados. Desta forma, seria adaptável ser desenhado psicologicamente para responder ao mal melhor do que ao bem”, diz Baumeister (325).

Agora você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o mundo moderno. Apesar de não viajarmos mais em bandos, nossa cultura é predominantemente social. Existe pressão (da mídia, dos nossos pais, do governo, dos nossos pares) para nos conformarmos e existir dentro dos limites do que é aceitável. A maioria de nós funciona dentro desse sistema para conseguir o dinheiro que precisamos para compras as necessidades da vida. Não é exatamente uma caça, mas certamente o mercado não é de graça. “O que machuca mais na resposta negativa é menos o conteúdo da mensagem e mais a ameaça de exclusão, abandono e ostracismo que acompanha a crítica”, diz Wright (59). No ambiente de trabalho, a crítica ameaça nossa habilidade de sobreviver. Não é surpresa que as palmas das nossas mãos ficam suadas quando adentramos os encontros anuais de avaliação.

No nível mais elementar, a crítica é julgamento e ninguém gostar de se sentir julgado. Em uma profissão repleta de indivíduos que se importam profundamente com seu trabalho, receber críticas pode parecer como uma afronta pessoal. Nossos locais de trabalho são carregados de carga emocional, particularmente durante períodos de grande mudança.


Fazendo crítica construtiva

Antes de discutir como receber produtivamente as críticas, é imperativo observar como nós comunicamos a crítica quando as fazemos. Sempre fornecer crítica construtiva é um passo na direção correta em direção ao fortalecimento da inteligência emocional. Começe se questionando os motivos de fazer crítica a outro indivíduo.

Razões erradas para crítica:

• defender/desculpar seu próprio comportamento
• para desmoralizar/condenar
• você está de mau humor
• para satisfazer uma terceira pessoa
• para fazer você parecer superior/poderoso

Razões corretas para crítica:

• Comprometimento/preocupação por outrem
• Senso de responsibilidade
• Para educar/tutelar
• Para dar suporte/engrandecer

Ainda que considerar seus motivos possa parecer como um primeiro passo, uma prática reflexiva de comunicação é o mais eficiente. O indivíduo a quem você direciona a crítica só será capaz de entender suas intenções baseado no que você comunica por meio de palavras e linguagem corporal. Estar aberto sobre suas intenções também inclui estar aberto para a severidade da crítica. Quais são as consequências para o recebedor dessa crítica? Os comentários dirigidos servem como alimento para o pensamento? Ele cometou suicídio profissional ou foi demitido? A conversa irá terminar com um pedido de desculpas formal de sua parte? É crítico comunicar a severidade da crítica logo no começa da conversa, para que o indivíduo possa parar de se preocupar e focar no problema em questão, em vez de suas consequências.

Outra estratégia para direcionar a crítica construtiva é liderar a conversa com questões e observações. Isso ajuda o indivíduo a ter um senso de propriedade na conversa em oposto a ser confrontado. Por exemplo: “você sabia que o volume da sua voz muda durante as aulas? Eu poderia muito bem dizer quando você acreditava no que estava dizendo ou não”. Trazer atenção para algo por meio de observação ou fazendo uma pergunta pode ser o empurrão necessário para que indivíduo mude.

A crítica construtiva deve ser concreta e de ação, oferecendo o recipiente com alternativas para a correção. Existe uma linha tênue entre ser construtivo e camuflar a crítica em afirmações positivas. Por exemplo, considere a diferença entre “o unicórnio naquele poster parece um pouco triste. Você já pensou em levantar suas sobrancelhas ou desenhar um sorriso para ajuda-lo a apresentar uma expressão mais feliz?” e “nossa, esse unicórnio é sensacional, é tão artístico e proporcional, e super adorável, mas…ele tem olhos muito tristes”. Sem uma comunicação clara, nós podemos falhar ao oferecer críticas efetivamente. Isso pode tornar a situação mais estressante na medida que o indivíduo batalha para decifrar mensagens dúbias.

Recebendo crítica construtiva

Mesmo quando oferecidas construtivamente, pelas razões corretas e com graça, receber críticas pode ser desconfortável. Porém, uma grande parte do aprendizado é reconhecer, analisar e consertar nossos erros. Em uma profissão focada no aprendizagem contínuo, a habilidade de aceitar crítica deveria ser uma área de melhoria constante.

A crítica é melhor recebida quando é convidada, então talvez nós deveríamos recebe-la mais frequentemente nas bibliotecas. Dianna Booher (CEO da Consultoria Booher, uma firma de treinamento de comunicação sediada em Dallas) recomenda iniciar relacionamentos profissionais de longo termo com uma discussão franca, perguntando “Você tem a intenção de cometer algum erro dentro dos próximos três anos?” Sim, essa é uma pergunta hilária e absurda – claro que erros serão cometidos! Entretanto, uma linha de conversação nesse sentido abre a porta para uma conversa sobre como o indivíduo gostaria de lidar com a crítica e o feedback. Você gostaria de receber a crítica pessoalmente? Com que frequência? Por email? No final ou no começo do dia? Usando humor para aliviar o tom desse importante diálogo, diminuirá a ansiedade e ajuda ambas partes se sentirem mais relaxadas para seguir adiante. É uma estratégia que seria ideal para os novos bibliotecários, estagiários ou técnicos administrativos, para que comecem a desenvolver sua inteligência emocional e habilidade de fazer e receber críticas.

Para que se possa receber crítica mais concreta e de ação, peça feedback sobre um aspecto específico de seu trabalho em vez de opiniões gerais. Por exemplo, em vez de perguntar a um colega “você gostou do meu treinamento?” pergunte “Você acha que usar questionários aumenta o número de interações e interesse dos alunos pela aula?” ou “como você acha que o aprendizado colaborativo usando o demo do EBSCO Discovery entre os alunos foi proveitoso?” Pedir feedback sobre um aspecto particular permite que você relaxe e mantenha o foco sobre áreas em que está interessado em melhorar, em vez de ser auto-consciente sobre aspectos que você sabe que pode melhorar sozinho. Considerar o meio pelo qual você solicita o feedback (e o feedback propriamente) é também importante. É incrivelmente difícil fornecer crítica construtivo por email, já que é difícil discernir sobre o tom da escrita e a linguagem corporal inexiste. A comunicação face-a-face é a melhor, mesmo que seja apenas uma conversa de 15 minutos na sala de um colega.

O falecido Dr. Ken Petress, professor emérito de comunicação na Universidad de Maine, recomenda que os recebedores resistam em ser dogmáticas ou rígidos sobre seu trabalho, qualquer que seja. Nós algumas vezes ouvimos o que queremos ouvir, e não o que está sendo comunicado. Isso é compreensível quando investimos muito tempo e energia em projetos pelos quais somos apaixonados. Entretanto, a capacidade de permanecer flexível e adaptável à respostas críticas são habilidades que ajudarão a levar a biblioteconomia adiante.

Crítica destrutiva

Um de meus colegas editores, Brett Bonfield, compartilhou a seguinte história comigo, contado por Paul Graham sobre Sam Altman. Se tornou “…uma espécie de lenda” entre os fundadores de startups e hackers e recebeu uma reação similar que a lei de Ranganathan “a cada livro seu leitor” causa nos bibliotecários (Bonfield):

“Alguém que não é ainda um adulto tenderá a responder a um desafio de um adulto de uma forma que reconhece o seu domínio. Se um adulto diz “essa é uma idéia estúpida” uma criança sairá com o rabo entre as pernas ou irá se rebelar. Mas se rebelar presume inferioridade, tanto quanto a submissão. A resposta para o adulto de que “essa é uma idéia estúpida” é simplesmente olhar a outra pessoa nos olhos e dizer: ‘Sério? Por que você acha?”.

Interpretação crítica pode ser complicada, pois é difícil separar a crítica ao seu trabalho da crítica à pessoa. Tente fazer uma presunção de boa-fé que a crítica tem uma motivação positiva. Se a conversa ainda soa destrutiva, envolva-se na percepção tentando determinar se você está decodificação a mensagem do orador corretamente. Isso fornece uma oportunidade não-ameaçadora para o crítico esclarecer seus comentários antes dos relacionamentos profissionais sairem danificados.

A crítica se debruça sobre a percepção da autoridade, que muitas vezes pode afetar a sua recepção. No local de trabalho, conselhos não solicitados podem provocar ressentimento porque o destinatário pode sentir que o crítico está presumindo autoridade sobre ele ou ela. “Tal feedback tende a surgir como uma potência: algo que é mais fácil tolerar vindo de um gerente que é uma autoridade reconhecida do que um colega que não é”, diz Wright (61). Então, o que você pode fazer quando duvidar da autoridade da pessoa que lhe dá feedback, seja porque a pessoa não está em um papel de supervisão ou quando duvida que eles estejam oferecendo algo construtivo e pelas razões certas?

Estar equipado com a linguagem para responder a crítica destrutiva pode ajudá-lo a lidar com isso de uma maneira saudável. As frases seguintes deixam a porta aberta para a discussão – todos envolvidos salvam suas peles. Pode ser estressante se sentir obrigado a resolver um problema em um determinado momento no tempo. Adotar estas respostas pode demonstrar que você está aberto a novas idéias, mas não o força a exercé-la prontamente no local, uma técnica particularmente útil se você suspeitar que a crítica está sendo entregue pelas razões erradas. Sinta-se livre para adicionar suas próprias respostas para a lista.

É, você pode estar certo.
Isso é uma boa idéia.
Como seria isso?
Eu não tinha pensado nisso.
Deixe-me pensar sobre isso.
Como poderíamos fazer isso funcionar?

Os profissionais devem ter em mente que os líderes são sempre alvos de críticas. “Se colocar à frente como alguém bom o suficiente para fazer coisas interessantes é, por definição, expor-se a todos os tipos de julgamentos negativos, e, tanto quanto posso dizer, o fato de que outras pessoas começam a decidir o que elas acham de seu comportamento deixa apenas duas estratégias para não sofrer a partir desses julgamentos: não fazer nada, ou não se preocupar com a reação “, diz Clay Shirky. A crítica destrutiva, normalmente motivada pela negatividade, diz mais sobre o crítico do que o destinatário. Nestes casos, pode ser útil investigar os possibilidades de não dar a mínima.

Conclusão

Fazer e receber críticas exige força emocional muito grande, mas isso não é desculpa para evitar o conflito. Boas decisões emergem de conflito e consenso na tomada de decisão. No entanto, é importante se comunicar de forma construtiva, a fim de mover a nossa profissão para a frente e construir relacionamentos significativos. Bibliotecas e outras instituições devem desenvolver uma cultura em que a dissidência é boa, e até mesmo valorizada.

As escolas de biblioteconomia deveriam integrar no ensino modelos de feedback no currículo. Em seu estudo piloto, os educadores Patricia L. Harms e Deborah Britt Roebuck descobriram que os estudantes de negócios apreciam oportunidades de dar e receber feedback, de modo a tornar-se mais confortáveis ​​com o processo de entrega da crítica construtiva (426). Depois de aprender o modelo BET/BEAR em sala de aula, os estudantes relataram adotar esta abordagem com sucesso em situações do mundo real.

Além disso, oportunidades de desenvolvimento profissional abundam na área da comunicação interpessoal. Bibliotecas continuam a procurar formas de desenvolver o potencial de liderança através de programas regionais e nacionais, como os Líderes Emergentes da ALA. À medida que consideramos como os gestores estão sendo criados, a capacidade de dar e receber crítica construtiva deve estar no topo da lista de características desejadas. Oficinas “mão-na-massa” com atividades reais e zonas de práticas de “julgamento livre” podem ser organizadas nos programas de conferências da área.

Como um novo profissional, esta tem sido uma das minhas maiores áreas de crescimento nos últimos quatro anos. E, como defensores da aprendizagem ao longo da vida e uma cidadania informada, é importante para bibliotecários atuar como modelos para as pessoas que servimos. Em uma nota final, se o seu único comentário a este artigo é “Isso é uma merda”, permita-me direcioná-lo ao gráfico dos motivos da crítica na seção dois. Aprenda-o. Viva-o. Todos nós podemos fazer isso melhor.

Erin Dorney

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