O que os bibliotecários precisam saber sobre ebooks?

Dia desses eu perguntei no facebook: alguma biblioteca brasileira já faz *empréstimo* de ebooks?

Apareceram algumas respostas interessantes, mas nenhuma que resolvesse a minha dúvida. Ainda não temos no Brasil um modelo comparável ao utilizado pelas biblioteca americanas, com conteúdo licenciado por empresas como overdrive, amazon e apple, com contratos bastante específicos em relação ao empréstimo de ebooks e controle de usuários, exatamente como fazemos aqui com os livros impressos.

Quando falo dessa modalidade de empréstimo de ebooks, não estou falando de arquivos textuais que podem ser lidos em browser e são apresentados em formatos pdf, txt. Esses existem há muito tempo, sob o nome de repositórios. Estou falando de ebooks que pertencem ao universo dos aparatos móveis, como kindle, ipads, celulares com android. Ebooks em formato mobi,epub, que possuem DRM ou não, que são interoperáveis entre os aparatos ou não, que são adquiridos pelos bibliotecas via licença ou aquisição perpétua. É disso que eu tô falando.

Pensando nessas coisas, no embate que eu venho acompanhando há alguns anos entre os bibliotecários americanos e os grandes licenciadores comerciais de ebooks, e na ausência de um modelo nacional funcionando a todo vapor, eu gostaria de esclarecer algumas coisas que os bibliotecários deveriam saber em relação aos ebooks.

Elas se resumem a uma coisa: se os bibliotecários derem mole, as bibliotecas vão perder e os distribuidores de livros vão ganhar.

Leitura vs Tecnologia

Cerca de 3 anos atrás fui convidado a proferir palestra para os alunos da Escola SESC de ensino médio, no Rio de Janeiro, e a pauta era o impacto da tecnologia nas práticas de leitura. Basicamente, a pergunta que estava tentando responder a mim mesmo era: será que a tecnologia está causando um impacto na minha experiência de leitura a ponto de a minha geração ter retrocedido intelectualmente em relação à geração anterior, dos nossos pais? Será que passar tantas horas no Facebook está nos deixando todos retardados?

Eu não poderia imaginar que essas perguntas, transformadas em uma apresentação em slides fosse acabar se tornando o meu slideshare com o maior número de visualizações até hoje, mais de 100 mil. No fundo, não se tratava de um enfrentamento entre leitura versus tecnologia, pois afinal, eu estava lendo mais do que nunca. Lendo mal, talvez sim. Mas lendo muito mais do que meu pai lia em seu tempo, quando tinha minha idade. Leitura e tecnologia caminham juntas. A escrita é uma tecnologia ora pois. É óbvio que se estava ocorrendo algum descompasso em relação a minha geração e a geração anterior, não era função do processo cognitivo da leitura, mas da adoção de aparatos eletrônicos.

Nenhuma pesquisa da neurociência ou das ciências sociais tinha resultados conclusivos. Dezenas de livros foram escritos por autores que defendem que sim, estamos nos tornando retardados com a internet. Outra dezena defendia que não, ao contrário do que nossos pais acreditam, a internet nos faz cada vez melhores.

No final das contas eram discussões ad nauseam que não conseguiam escapar da chatíssima divisão binária entre o fetiche pelo livro impresso e o fetiche pelo texto digital.

Uma anedota ilustra bem esse embate sem sentido:

-O que acontece com os ebooks quando falta luz? Livros impressos podem ser lidos à luz de velas.
-Quando falta luz, nos dias de hoje, todos nós vamos para casa, já era. Talvez seja só eu, mas eu tenho certeza que sou capaz de encontrar uma bateria no escuro mais rapidamente do que eu poderia encontrar uma vela.

Pulei fora dessas discussões e passei a acreditar que no final, o valor da experiência da leitura é meramente individual. Dois meios de imersão experiencial no mundo por meio da linguagem, digital ou analógico. Cada um escolha o seu e seja feliz, como Salomão Schvartzman.

Livros são livros, ponto. As ideias expressadas nos livros eletrônicos não são menos importantes do que aquelas expressadas em papel. Deixando Marshall McLuhan um pouco de lado, acho que as mensagens são mais relevantes do que o meio, sim. Claro que ele não achava que o conteúdo não era importante. Mas acreditava que a tecnologia de entrega é o que em última instância nos envolve e nos faz evoluir.

Em grande medida, nós respondemos a qualquer mídia como meio, independentemente do conteúdo. A própria linguagem reflete isso: nós “lemos um livro”. Se você é um leitor de livros, você se preocupa mais com a leitura do que sobre qualquer livro em particular.

O que é fácil concordar é que a tecnologia avançou para conseguir lidar como volume crescente de registros. Eu enquanto bibliotecário não acredito que seja uma questão de “os livros em papel vão acabar”, mas uma questão de partir para um estágio mais avançado de eficiência e distribuição de ideias.

Uma coisa que eu tento explicar aos meus alunos é que é inaceitável que a gente permaneça engessado em modelos antigos que empregam a tecnologia utilizada na época em que esses modelos foram concebidos, e essa era a melhor tecnologia disponível na época. Hoje temos melhor tecnologia, mas continuamos a trabalhar sobre modelos que tem como base tecnologias do passado.

Pensem em como Dewey ou Cutter (modelos empregados na gestão de acervos há mais de um século) formulariam seus códigos pensando na tecnologia que nós dispomos hoje, 2013. Será que a CDD seria a mesma? Será que nós faríamos o mesmo que Dewey fez, mais de 100 anos atrás?

Não é nenhuma novidade. As tecnologias da inteligência se renovam de tempos em tempos para dar conta do crescente volume de informação disponível. Já aconteceu antes, na transição da tradição oral para a escrita; das tábulas de argila para o papiro; do pergaminho para o papel; do manuscrito para o impresso; do impresso para o digital.

A diferença entre um livro tradicional e um eletrônico é similar a diferença entre uma máquina de escrever e um processador de texto Word. Não há nada de errado com as máquinas de escrever, mas elas simplesmente representam algo que não é tão efetivo quanto o “concorrente”.

Meu argumento individual é que o mercado editorial vai ditar o ritmo da atual transição de tecnologia. Ao passo que para os editores e distribuidores for mais rentável e simples comercializar livros digitais em vez de livros em papel, a circulação de livros impressos diminuirá e dificilmente uma movimentação social em favor do impresso terá lobby suficiente para deter os interesses comerciais desses distribuidores. Alguém hoje sente saudades de fitas de vídeo em VHS? Algum saudosista sozinho consegue convencer uma gravadora de reeditar no mercado versões de discos em vinil? Evidente que não.

Entretanto, nós temos sorte de ser a geração da transição e termos a liberdade de percorrer e escolher entre dois modelos. Clay Shirky brilhantemente me fez entender que toda tecnologia passada que aumentou o número de produtores e consumidores de material escrito tem sido boa para a humanidade. Talvez um meio que expande radicalmente a nossa capacidade de criar e compartilhar material escrito vai acabar sendo ruim. Mas isso seria o primeiro caso, nos três mil anos entre o alfabeto fenício e agora.

“Sempre que a abundância de material escrito explode, a qualidade média do material escrito cai, como um efeito colateral do volume. Novas formas tem início hesitante e incompleto, e só podem competir por atenção com a literatura mais antiga entre as pessoas que prezam experimentação. A abundância em si cria uma distração conforme as pessoas lidam com a sobrecarga de informações. Instituições construídas em torno da escassez anterior avisam, muitas vezes corretamente, do fim da sociedade como a conhecemos. E o ato de institucionalizar a nova abundância necessita complexa e, ocasionalmente, revolucionária, mudança.” Trecho do “Lá vem todo mundo”.

Ainda não conseguimos entender exatamente o impacto da tecnologia sobre as nossas práticas de leituras e construção intelectual. Mas iremos aprender a lidar com essa transição, nem que seja na marra.

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O texto digital possui potencial de extrapolar a noção do texto linear. Aldo Barreto já falou sobre isso 1027 vezes, com razão.

Quando estou escrevendo esse exato texto aqui, agora, no meu computador, não estou pensando muito sobre como ele vai parecer impresso. Sei que ele tem um destino em uma das seções da Revista Biblioo, que ele nasce e será consumido digitalmente. Mas agora, enquanto escrevo, penso a história que quero contar como uma cachoeira de texto, um brainstorm, vômito de palavras, como algo que pode ser colocado em qualquer recipiente, qualquer suporte.

Existe um diferença entre um tipo de conteúdo que não vê a página ou seus limites, e outro tipo de conteúdo que não só é consciente da página, mas que é capaz de abraça-la/adota-la. Gente, a leitura de um texto em um livro encadernado não precisa ser idêntica à leitura de um texto que nasce digital, que poderá ser veiculado em um aparato como o ipad.

O ipad conta com uma infinidade de recursos capazes de incrementar a experiência de leitura. Parem de ler esse texto agora e procurem no google pelo Ted Talk de Mike Matas, em que ele apresenta a nova geração do livro digital, e entendam o que quero dizer. O que eu quero dizer não pode ser dito aqui, nesse texto, justamente porque me faltam recursos que vão além da tinta preta sobre folha branca. Assistam ao vídeo.

Vamos tirar proveito da tecnologia que dispomos hoje, para promover uma experiência de leitura textual mais dinâmica, mais interativa, mais audiovisual, mais cativante? Já pararam para reparar em como os ebooks vendidos atualmente são uma réplica idêntica das versões em papel? Não deveriam.

Isso não é só uma reclamação sobre o texto perdendo significado. Livros não se tornam mais difíceis de entender ou confusos só porque viraram digitais. Se trata principalmente de questões relativas à qualidade. Uma propriedade inevitável do argumento da qualidade é que a tecnologia está fechando a lacuna (por meio de avanços em telas e baterias) e por causa de recursos adicionais (tomar nota, bookmarking, pesquisa no texto), inevitavelmente ultrapassará o nível de conforto da leitura em papel.

Ebook é mais do que papel. Deve ser mais do que papel. Pensem nisso.

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Ebooks em bibliotecas

Não seria nenhum absurdo afirmar que no nosso mundo de hoje o acesso eletrônico não é apenas comum, mas em breve será dominante.

Peguem qualquer pesquisa sobre consumo digital no Brasil e no mundo e todas mostrarão que o número de celulares vendidos aumentou, que o número de pessoas conectadas à internet também e a venda de leitores de ebooks e dos próprios ebooks crescem em margem bastante superior à venda de livros impressos, dentro de suas fatias de mercado.

Se nosso país possui mais telefones celulares do que pessoas, servir os usuários de smartphones é ultra importante, ou deverá ser muito em breve, uma vez que a experiência de leitura em um telefone é provável que continue a aumentar até que a diferença entre a leitura em um telefone e em um e-reader seja semelhante à diferença entre a leitura de um livro de bolso e um livro de capa dura.

Já viram as pessoas lendo, jogando nos seus celulares e tablets no metrô? Pois bem, o potencial existe e é claro. Em algum momento no futuro a expectativa é que os leitores brasileiros mostrem interesse em verificar a possibilidade de pegar emprestado ebooks a partir das suas bibliotecas, sejam públicas ou universitárias.

Como eu mencionei anteriormente, ainda estamos engatinhando na implantação de um modelo nacional de oferta ebooks via bibliotecas. Mas não me restam dúvidas que hoje, a concepção de um plano sensato e de longo prazo para a aquisição de ebooks é provavelmente a questão mais premente nas bibliotecas brasileiras de grande porte.

Nossa realidade é de orçamentos apertados, tornando as opções de oferta de serviços e produtos limitadas. Mas em todo caso, podemos analisar com calma como os bibliotecários americanos, europeus e latinos vêm lidando com a implementação de uma cultura de ebooks em bibliotecas, e ao menos, tentar não repetir erros que eventualmente eles cometeram.

O maior problema que existe hoje na adoção de ebooks diz respeito aos contratos estabelecidos entre os editores/fornecedores/distribuidores e as bibliotecas.

Plataformas de fornecedores proporcionam o acesso a uma grande quantidade de conteúdo, enquanto liberam as bibliotecas da complexidade da negociação junto às editoras (pensem no Portal Capes, por exemplo). Mas a nuvem de hospedagem, condições restritivas e a incerteza sobre a posse do conteúdo minam a capacidade das bibliotecas de gerenciar as coleções digitais a sua maneira.

Convencionalmente, quando adquirimos um livro, ele é da biblioteca. Entre outras coisas, podemos emprestá-lo ou descartá-lo. Ebooks, no entanto, não são geralmente adquiridos, eles são licenciados. Estas licenças caem sob a lei dos contratos, não exatamente a lei de direitos autorais, e como tal podem impor restrições adicionais.

A situação atual em países onde os ebooks são passíveis de empréstimo é a seguinte: exceto sob circunstâncias limitadas, os ebooks adquiridos pelas bibliotecas não podem ser emprestados indiscriminadamente; as pessoas não conseguem doar seus ebooks para as bibliotecas; editores e plataformas podem (e fazem) limitar os arquivos para um usuário por vez, acessível apenas por meio de IPs ou VPNs ou através de dispositivos específicos (kindle, ipad, android). Os arquivos digitais possuem restrições de DRM (Digital Rights Management) que impedem a cópia e compartilhamento dos arquivos.

Destrinchando, os distribuidores trabalham com uma lógica de transposição idêntica do controle de acervos e usuários do mundo físico para o mundo digital. Enquanto que a distribuição e replicações de um livro em papel é limitada pelas restrições de ordem física, a produção e distribuição de um arquivo digital é irrisória (você pode copiar centenas de vezes o mesmo arquivo e distribuí-lo a cem pessoas diferentes e o custo disso é praticamente zero), mas esse valor não é convertido para o usuário final (a biblioteca e o leitor).

Algumas distribuidoras americanas impõem a limitação de 26 empréstimos por contrato. Isso significa que a biblioteca paga pelo licenciamento de um determinado título (Guerra dos Tronos, por exemplo) que poderá ser emprestado exclusivamente a uma pessoa de cada vez, por um período de 2 semanas (2 vezes 26, dá 52 semanas, um ano inteiro). Realizados os 26 empréstimos ao longo de um ano (o que acontecer primeiro), a biblioteca é obrigada a renovar o contrato.

Os contratos na forma de licenciamento significam que a biblioteca paga um aluguel por um determinado número de títulos, para em seguida poder alugar esses livros aos seus usuários cadastrados. Uma vez terminado o contrato, as bibliotecas não detêm a posse dos materiais (posso definitiva, perpétua), já que esses ebooks estão em plataformas cloud, gerenciadas pelos próprios distribuidores.

Os distribuidores costumam praticar a tática de venda em pacote. Isto é, ainda que a biblioteca esteja interessada na compra de um determinado título, o distribuidor obriga a biblioteca adquirir diversos outros títulos, que podem ser convenientes ou não dentro do escopo da biblioteca, para que possa ter acesso ao título original de interesse. Isso implica, obviamente, aumento no preço do licenciamento.

Na maior parte dos casos, os contratos não oferecem um modelo de portabilidade, quando uma biblioteca se reserva o direito de transferir uma cópia autorizada de seus próprios servidores ou a outro fornecedor. Ou seja, existe o risco se a biblioteca optar por trocar de distribuidor/editor, ela perder o acesso a todos os itens pertencentes aos contratos anteriores.

Entre esses e outros entraves, em particular os preços abusivos, chegamos a uma conclusão: os modelos de ebook nos fazem escolher. E eu não quero dizer a escolha de um catálogo, da interface, ou um conjunto de cláusulas contratuais que queremos. Quero dizer que nós escolhemos quais os valores queremos adotar, e quais estamos dispostos a sacrificar. Estamos fazendo essas escolhas de valor cada vez que assinamos um contrato de ebooks.

Se nós, como bibliotecários desejamos fornecer o maior acesso possível e o mais alto nível de serviço para as pessoas que possuem esses dispositivos, e ao mesmo tempo preservar os valores fundamentais que melhor servem os leitores, precisamos desenvolver práticas de e-books e softwares que complementam um ao outro. Para isso, é preciso garantir que as negociações com nossos fornecedores mantenham o equilíbrio que tradicionalmente tem servido aos interesses de todos, ajudando editores e outros fornecedores a manter a sua rentabilidade e em contrapartira pressionar para que promovam a leitura de maneira geral e apoiem a missão das bibliotecas, e dando aos leitores a maior variedade possível de opções do que ler e como acessá-lo.

Quais são os valores da biblioteca, com b maiúsculo? Acreditamos que a nossa principal função é defender os direitos de acesso para os nossos usuários. Claro que o acesso é um dos valores fundamentais da biblioteconomia, mas temos outros. Compartilhamento. Preservação. Privacidade. Livros em papel podem servir todos esses valores simultaneamente. Os ebooks não.

Outro questão pertinente é saber se estamos oferecendo aos usuário de hoje acesso à custa dos usuários de amanhã. Considere a criação do Portal de Periódicos da CAPES. Em meados de 1990, o governo passou a comprar títulos como pacotes, distribuindo entre as bibliotecas universitárias, diminuindo seu custo por título, mas também reduzindo a sua flexibilidade de compra – o que agora se tornou uma crise comercial onipresente (leiam meu artigo sobre o custo do conhecimento).

Claro que o Portal Capes expandiu o acesso a periódicos para os usuários daquela época, mas trancou as bibliotecas em um mercado que não estava no melhor de seus interesses a longo prazo. Agora, os custos dos periódicos estão subindo rapidamente e o governo e as bibliotecas estão tendo que tomar decisões difíceis sobre a manutenção do acesso a esse conteúdo. Se os valores de venda/licença pelas revistas que são imprescindíveis para as bibliotecas começar a canibalizar o orçamento federal, como os outros conteúdos e serviços que dependem desse subsídio governamental irão se sustentar?

A mesma situação está acontecendo hoje com ebooks. Temos opções que aumentam o acesso de ebooks em bibliotecas para os usuários de hoje – mas o mercado criado em torno disso nem sempre reflete os interesses das bibliotecas, e isso vai afetar os usuários de amanhã. Se hoje a gente compactuar com um status quo que pode triplicar os preços dos ebook sem justificativa e determinar quantas vezes um livro pode circular durante o ano, quais serão os termos para os conteúdo imprescindíveis de 2020? Qual conteúdo ou serviço teremos que sacrificar para poder sustentar esse sistema que estamos cultivando agora? Quando você tem que escolher entre o usuário de 2013 e o usuário de 2020 e seus respectivos privilégios de direito a informação, qual deles você escolhe, e por que?

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O que devemos propor?

Eu joguei algumas perguntas neste ensaio, mas não tenho respostas. Às vezes não há boas respostas. Às vezes, a melhor resposta pode variar, para cada biblioteca e cada bibliotecário, de acordo com sua missão e seus usuários e seus contratos.

A única coisa que sabemos com certeza sobre o futuro de ebooks em bibliotecas é que trata-se de compensações entre valores profundamente arraigados. Eu acredito que é importante para as bibliotecas fazer este tipo de trabalho, agora, o mais rápido possível. Precisamos ter conversas apaixonadas, dedicadas, com olhos bem abertos, sobre quais valores nós queremos defender na briga pelos ebooks – e pelos quais estamos dispostos a nos comprometer. Precisamos considerar qual dentre muitos modelos imperfeitos oferecem vantagens e desvantagens para a manutenção de determinados valores da biblioteca. E precisamos fazer isso, não só no atendimento aos usuários de 2013, mas pensando a nos usuários de 2020 também.

Quando assinamos contratos que ignoram os princípios elementares da biblioteconomia, estamos abandonando nossas obrigações morais e financeiras para as pessoas cujas coleções de biblioteca e oportunidades intelectuais devemos defender. Nós estamos pagando por coisas e estamos compartilhando com a nossa comunidade, mas ao contrário de antes, não estamos realmente adquirindo nada.

Indivíduos que escolhem Amazon ou Netflix ou Spotify para seu uso pessoal estão assumindo um risco compreensível, uma vez que a relação custo-benefício pode muito bem trabalhar em seu favor, mesmo que o seu acesso seja efêmero ou de alguma maneira limitado. Mas se as bibliotecas, coletivamente, decidem ignorar as necessidades de longo prazo da sociedade para a preservação da memória e da liberdade intelectual, nós estamos tomando uma decisão cujas consequências parecem propensas a trabalhar contra os interesses de todos.

A mensagem positiva é que estou também vendo o que acontece quando as bibliotecas encaram a adversidade com inovação. A Biblioteca da PUC-RS já possui um modelo de portabilidade. Acredito que a Biblioteca São Paulo ou a Mario de Andrade conseguirão estabelecer em breve algum modelo de licença ilimitada. As bibliotecas das universidades federais eventualmente terão de se unir para a criação de um modelo local open source, com conteúdo compartilhado.

A história do mercado editorial e das bibliotecas é permeada por uma cultura de gatekeeping. Os custos de produção, distribuição e avaliação tem sido elevados. O que favoreceu as grandes editoras, e ajuda a explicar por que temos visto tantas fusões na indústria. Os editores/distribuidores não precisam ficar putos comigo, mas por tudo que venho acompanhando, eles simplesmente deixaram claro que a relação que estabelecem com as bibliotecas é a de conseguir mais dinheiro por título quanto for possível.

Claro que precisamos reconhecer e agradecer aos editores e distribuidores que têm trabalhado com as bibliotecas em modelos de empréstimo de ebooks em um momento de ruptura e transição significativa. Não tá fácil pra ninguém. Mas as bibliotecas devem zelar pela capacidade de adquirir uma vasta gama de conteúdo digital a um preço justo para que todos os leitores tenham acesso completo aos recursos criativos e culturais do nosso mundo, especialmente aqueles que dependem de bibliotecas como sua única fonte de material de leitura.

Em suma, as bibliotecas precisam demonstrar que elas esperam pelo seu dinheiro. O que as bibliotecas devem exigir de seus distribuidores em troca pelos altos preços cobrados? Algumas sugestões:

Portabilidade – os ebooks não deve ser bloqueados para a plataforma de distribuição de um determinado fornecedor. A maioria das bibliotecas já existia antes do Overdrive, Adobe, Android, Apple e Amazon combinadas e gostariam de continuar existindo depois dessas empresas terem sido esquecidas. Seus ebooks devem persistir também.

Transmissibilidade – as bibliotecas podem fazer seus ativos de ebook ir muito mais longe, se puderem negociar empréstimo entre bibliotecas ou estabelecer consórcios.

Privacidade – bibliotecas nunca devem ser forçadas a expor os padrões de leitura e consumo de informação de seus usuários aos olhos curiosos de nenhuma empresa com fins lucrativos.

Acessibilidade – bibliotecas serão cada vez mais invocadas a fornecer tecnologias de acessibilidade para os usuários que precisam delas, como audiobooks e aplicativos mobile para deficientes visuais.

Interoperabilidade – os sistemas de bibliotecas cada vez mais precisam oferecer a capacidade de anotar sobre textos, discustí-los, promover ferramentas de busca avançadas e interação social, e não serão capazes de fazer isso se seus ebooks são bloqueados por DRM.

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trechos traduzidos dos textos Ebooks Choices and the Soul of Librarianship, The ebook cargo cult, Bold prediction, Books in te age of the ipad e Ebook prices hikes good for libraries.